O Arinto à Mesa
Sessão de enogastronomia com vinhos de Bucelas
O Arinto é uma das castas mais plantadas de Portugal e dá origem a vinhos gastronómicos. Porquê?
A convite do Museu do Vinho e da Vinha de Bucelas fui dar uma aula sobre Enogastronomia. Uma sessão de introdução à temática que versa a relação entre a comida, o vinho e a pessoa, mas focada em vinhos de Bucelas.
Bucelas é nome de uma localidade próxima de Lisboa mas é também nome de uma das nove Denominações de Origem Controlada (DOC) da região vitivinícola de Lisboa, conhecida pelos seus vinhos com base na casta Arinto.
O Arinto é uma casta que aporta frescura e aromas cítricos aos vinhos, que é adaptável a diferentes estilos de vinho, desde os espumantes até aos fortificados, passando por tranquilos que vão dos muito secos aos muito doces. É também conhecida pelo seu potencial de envelhecimento.
Esta sessão de introdução teve uma componente teórica, onde introduzi os conceitos de Enogastronomia, de Harmonização e de Equilíbrio, bem como uma breve introdução a algumas técnicas de harmonização às quais gosto de apelidar de estratégias, terminando a sessão com uma componente práctica onde foi possível provar três vinhos de Bucelas, de estilos bem distintos, com três propostas gastronómicas.


O primeiro vinho a ser servido foi um espumante bruto da Quinta da Romeira, bem seco, de acidez pronunciada, com carácter cítrico pronunciado, jovem, vivo, para harmonizar com um pastel de bacalhau. Uma conjugação com várias ligações, tanto a nível da textura (crocância da bolha com o estaladiço da fritura) mas sobretudo com o contraste da acidez do vinho com a gordura da confecção.
Seguiu-se o momento de um prato principal, com a escolha a recair num Bacalhau espiritual que estava delicioso, um prato de forno, salgado, cremoso, não muito intenso, que ligou muito bem com o Mira 2021, um Arinto seco e fresco, de carácter mineral, com barrica discreta, alguma cremosidade e uma ligeira evolução, com estrutura suficiente para aguentar o prato e com frescura qb para o equilibrar.
Por fim, um momento dedicado aos doces, com uma ligação de conforto entre um vinho doce e uma sobremesa. O vinho era uma colheita tardia de 2004, com uma evolução notória no aroma e na cor, um vinho doce, cremoso, com uma boa dose de acidez. A ligação não foi perfeita mas foi funcional em vários aspectos, faltou o carácter mais fresco e cítrico no vinho (teria de ser uma colheita tardia mais jovem) para ligar melhor ao limão do arroz doce…



Uma sessão que deixou água na boca, uma introdução que abriu caminhos para explorar e que estabeleceu algumas bases de conhecimento fundamentais para compreender a ligação entre comida e vinho, neste caso aplicada a vinhos de Bucelas. Boas provas!


